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De Indisciplinar
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A revista Indisciplinar v.6 n.2 traz o tema “Outros topos: das utopias às distopias” e propõe uma ampla reflexão sobre o uso desses conceitos ao longo da modernidade e no período contemporâneo. No ensaio de abertura, “Utopias e distopias no colapso da modernização, ou: como a crise altera os nossos regimes de expectativa”, Thiago Canettieri demonstra como o otimismo com o progresso, marca fundamental da modernidade, se perde no momento em que o fim do mundo passa a ser uma preocupação social e ambiental. Recorrendo a importantes teóricos contemporâneos, o autor tenta rascunhar as razões pelas quais a humanidade parece incapaz de manter um imaginário político e propõe caminhos para recuperarmos a esperança na coletividade e na transformação do status quo.

Reflexões semelhantes às de Canettieri podem ser vistas nos artigos “Caminhos para utopia iconoclasta: Diálogo entre psicanálise, arquitetura e urbanismo”, de Larissa Napoli, “Na distopia ou na utopia, a cidade não é lugar de mulher”, de Yara Neves e Jéssica Rossone, “ loquedaun, a cidade em tempos de coronavírus”, de Fernando Freitas Fuão, e “Por uma ética para o espaço em tempos de crise”, escrito por membros do grupo de pesquisa e extensão Cipó-Cidades Política, da UFBA. Em todos eles, considerações sobre os engodos do projeto moderno são aproximadas de críticas à estrutura social da contemporaneidade, especialmente na condução da pandemia do coronavírus. Já “Izidora em 3 atos: O conflito fundiário. A luta popular. O imaginário simbólico da terra prometida”, de Izabella Galera e Raquel Garcia Gonçalves, evidencia como a possibilidade de transformação social pela luta política continua viva nas periferias brasileiras a partir de uma cuidadosa apresentação da história da Ocupação Izidora. Giancarlo Machado e Leonardo Brandão, no artigo “Os movimentos do fazer-cidade: reflexões sobre uma utopia citadina”, também tratam de uma faísca utópica no cotidiano urbano quando apresentam os movimentos de grupos skatistas que desafiam o planejamento urbano e a contenção dos corpos na cidade de São Paulo. A contraposição entre a atuação do Estado e a luta popular é também o tema da entrevista com Vinicius Moreno, militante do Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) e coordenador do Galpão da Ocupação Pátria Livre na Favela Pedreira Prado Lopes.

O artigo “Tensões entre utopias e distopias”, de Ana Luisa Ennes Murta, apresenta uma cuidadosa análise da obra de Thomas More Utopia, evidenciando como aspectos disciplinadores constantemente colocados como antagônicos à noção utópica já estavam presentes ali. De forma semelhante, “Utopias distópicas em Frankenstein e Os despossuídos”, de Sabrina Ramos Gomes, desfaz o binarismo utopia/distopia ao recorrer a duas obras de ficção científica distópica, ambas escritas por mulheres, para demonstrar as críticas sociais e as linhas de fuga ali presentes. Francisco Freitas, em “Cartografias marinhas”, elabora uma lírica reflexão sobre o sintagma carta e suas múltiplas significações nas tentativas de representar o espaço. Já “Notas sobre utopia e distopia a partir da Casa Kaufmann em Palm Springs, California”, de Lucia Costa e Alice Murad, demonstra como a utopia californiana da segunda metade do século XX dependia de um grupo de trabalhadores explorados e invisibilizados. Uma ideia semelhante é desenvolvida por Luiz Eduardo Minks Pereira e Marcos Sardá Vieira em “Lazer, gênero e sexualidades no espaço urbano central de Erechim”, que demonstra como o planejamento urbano da cidade gaúcha favorece a exclusão de alguns grupos sociais. “Barcos Possíveis: Heterotopia como terceira margem”, de Luana Andrade e Luciana Borre, traz uma possibilidade de atuação para a universidade neste período histórico marcado pela desesperança ao narrar a atuação das profissionais nas oficinas Barcos possíveis.

Finalmente, esta edição da revista Indisciplinar conta com três trabalhos artísticos. O ensaio gráfico Mapas: Zona, zona ou zona, de Marília Pimenta. Além disso, a revista Indisciplinar traz, pela primeira vez, um conto literário: a narrativa distópica de “Os cus do mundo”, de Marcos Fábio de Faria.

Boa leitura a todos!